Andamos a pé. Muito. Percorremos ruelas na procura de portas entreabertas para pequenos refúgios. Uns levam-nos até à beira do lago. Depressa a ligação à água se transmuta em algo de vital. Talvez seja a recordação do Tejo lisboeta, do mar da Costa da Caparica e de Peniche. É uma paisagem que nos pacifica e revitaliza. Um gerador de energia para gastar no bulício da Índia. Em certos momentos o silêncio – e a solidão – tornam-se tão acutilantes que quase juramos ouvir o rumorejar de um lago cristalizado em espelho que reflecte as nuvens plantadas no céu.
sábado, 16 de maio de 2009
MARGINAIS (NAS MARGENS)
Andamos a pé. Muito. Percorremos ruelas na procura de portas entreabertas para pequenos refúgios. Uns levam-nos até à beira do lago. Depressa a ligação à água se transmuta em algo de vital. Talvez seja a recordação do Tejo lisboeta, do mar da Costa da Caparica e de Peniche. É uma paisagem que nos pacifica e revitaliza. Um gerador de energia para gastar no bulício da Índia. Em certos momentos o silêncio – e a solidão – tornam-se tão acutilantes que quase juramos ouvir o rumorejar de um lago cristalizado em espelho que reflecte as nuvens plantadas no céu.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
UDAIPUR CRISTALINA
Os terraços com vista para o lago Pichhola convidam a desfrutar sem pressa a serenidade encontrada após a atormentada viagem. Udaipur divide-se entre estes promontórios de silêncio, geralmente disfarçados de restaurantes, e o centro onde reina a confusão. Estamos num destino turístico do Rajastão, para nativos e estrangeiros, pelo que palácios, ruas, escadarias à beira da água, estão repletas de gente. O ruído dos motores das aceleras mistura-se com os sinos dos templos e a música que jorra dos altifalantes. A cidade está engalanada para o Diwali. Mas é num terraço que encontramos o ponto de equilíbrio enquanto osvervamos os macacos que saltam de telhado em telhado e as crianças que empinam papagaios.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
AHMEDABAD BÍBLICA

O corpo cansado dificulta a preparação do espírito para o desembarque nocturno em Ahmedabad. Não ganho coragem de sacar a câmara para ilustrar o formigueiro em que penetramos. A Andreia descreve a cena como saída dos tempos bíblicos; eu acrescento o imaginário de Hieronymus Bosch. Paira a miséria nos andrajos dos pedintes. O cansaço vinca o rosto dos velhos. Somos inundados por olhares demasiado intensos e múltiplas solicitações. Estamos receosos, amedrontados, nasce a vontade de desaparecer dali. As mochilas às costas ganham o peso de uma cruz até as pousarmos na plataforma do comboio para Udaipur. Passa uma hora até nos deitarmos aliviados no beliche da nossa carruagem. Arrancamos. Pela janela sem vidros entra frio e poeira. Submergimos num casulo de casacos fato treino e lençóis “saco cama”. É assim que se caminha para um destino de luas-de-mel.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
DIWALI IMPRESSIONISTA

Levamos dez longas e cansativas horas até chegar a Ahmedabad. No espaço de uma carruagem apinhada de gente, os indianos conversam, dormem, comem, saltitam de lugar em lugar. Pés descalços invadem frinchas de espaço que descobrem nos assentos em frente. Instalado à nossa frente, segue um casal de avós com dois netos. A observação mútua gera sorrisos que dão lugar a troca de palavras em inglês. O neto mais novo tem 10 meses. Faz xixi onde calha, é alimentado frequentemente, dorme embalado numa rede de descanso improvisada. Lá fora entardece. As casas das localidades estão alumiadas por velas. Celebra-se o Diwali, data religiosa conhecida por “Festival das Luzes”. Olhar pela janela para o pontilhado de pequenas chamas acesas apazigua o desconforto da viagem. Como se estivéssemos a admirar um nocturno de James Whistler.
terça-feira, 12 de maio de 2009
A PACATEZ DISSIMULADA DE MUMBAI
segunda-feira, 11 de maio de 2009
SALVAÇÃO VERMELHA
domingo, 10 de maio de 2009
OLFACTO NÃO IDENTIFICADO
O cheiro. Mal saímos do avião é o cheiro que nos invade obscenamente as narinas. Exalamos algo inqualificável. Como se não tivéssemos os códigos necessários para decifrar a aragem que nos envolve. As ventoinhas acopladas ao tecto do aeroporto rodam vagarosamente. Devem existir apenas para espalhar melhor este odor identitário até que ele nos conquiste o nariz, instalando-se na forma de tatuagem. Indelével e indisfarçável. A longa fila de pessoas esvai-se a conta-gotas. Entregamos o passaporte. Revista-se o visto. Aplica-se o carimbo. Passamos a barreira invisível e entramos no mundo do cheiro dissemelhante. Parece que lhe chamam Índia.
sábado, 9 de maio de 2009
DESPEDIDAS DE CAMALEÃO

Adeus. Abraços longos, beijos, lágrimas. Seria ridículo dizer “até já”. Mas diz-se, a camuflar a empreitada que de repente se fez gente. Tem a forma de um gigante disfarçado de montanha inexpugnável ou rio raivoso. O colosso afinal tem pés de barro. Adeus. Estatela-se com estrondo quando entramos no avião. Não estamos numa gruta escura como breu. Abunda a azáfama. O movimento do arco-íris em forma de vestes relembra um caleidoscópio. Adeus. Aos saris junta-se o burburinho de conversas imperceptíveis e o aroma de especiarias. Somos dois e apertamos as mãos. É mesmo verdade. Começou. Mas leva tempo a esquecer os adeus em forma de até já.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
NA PALMA DA MÃO
quinta-feira, 7 de maio de 2009
GAVETAS MALEÁVEIS
Retira-se a roupa das gavetas e começa o jogo de xadrez. A adição de um casaco de malha pode implicar o sacrifício de uma t-shirt ou uma toalha inocentes. Medem-se importâncias na escala do vestuário. Surgem argumentos racionais sobre tipos de clima e épocas do ano. Instala-se uma guerra feroz pelo espaço exíguo. As vítimas mortais são jogadas para o chão ou devolvidas ao local original. Os feridos convalescem num canto da cama, expectantes por um resgate. O monte das peças vitoriosas representa um ínfimo conjunto de privilegiados; o conteúdo de duas mochilas cabe num tampo de mesa. Ainda assim, as gavetas sorriem. Vão suportar uns meses menos pesados.
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