Tentar apresentar graficamente o trajecto indiano é tarefa complicada. O mapa mal cabe no ecrã, é preciso dividir a Índia por Sul e Norte para conseguir que apareçam as cidades por onde andámos. Esta dificuldade é semelhante à de programar uma viagem pelo subcontinente. Com tempo contado, é preferível escolher uma área geográfica limitada. Aparte o avião, as deslocações são simplesmente demasiado demoradas para conseguir abranger todos os pontos de maior interesse. Fica por isso uma sensação de projecto incompleto, pelos lugares a que não fomos mas também pelas vivências que apenas conseguimos aflorar. A Índia, ainda mais que outros destinos, precisa de tempo. A apresentação é rápida, brutal e exigente. Mas a digestão é lenta. Quanto à compreensão, será tarefa para o resto da vida e, se possível, novas incursões. Porque há algo neste mundo à parte que fica incrustado na nossa pele e mente. Como uma tatuagem invisível. Resistente e, quem sabe, irresistível. Porque fica a dúvida e ao mesmo tempo a vontade de um dia aqui voltar.
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terça-feira, 14 de julho de 2009
ÍNDIA: PARTE DE UM MUNDO
Tentar apresentar graficamente o trajecto indiano é tarefa complicada. O mapa mal cabe no ecrã, é preciso dividir a Índia por Sul e Norte para conseguir que apareçam as cidades por onde andámos. Esta dificuldade é semelhante à de programar uma viagem pelo subcontinente. Com tempo contado, é preferível escolher uma área geográfica limitada. Aparte o avião, as deslocações são simplesmente demasiado demoradas para conseguir abranger todos os pontos de maior interesse. Fica por isso uma sensação de projecto incompleto, pelos lugares a que não fomos mas também pelas vivências que apenas conseguimos aflorar. A Índia, ainda mais que outros destinos, precisa de tempo. A apresentação é rápida, brutal e exigente. Mas a digestão é lenta. Quanto à compreensão, será tarefa para o resto da vida e, se possível, novas incursões. Porque há algo neste mundo à parte que fica incrustado na nossa pele e mente. Como uma tatuagem invisível. Resistente e, quem sabe, irresistível. Porque fica a dúvida e ao mesmo tempo a vontade de um dia aqui voltar.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
TÁXI SNIFADO


No derradeiro trajecto, calha-nos um jovem motorista. As mochilas são postas na traseira diminuta do típico Premier Padmini. Devido ao volume, o porta-bagagem não fecha. Um cordel atado remedeia a situação. Entardece e a luz do dia começa a escassear para alumiar estradas, prédios, pessoas, vacas, cães, anúncios pintados nas paredes. Estamos os dois colados às janelas, semiabertas para deixar entrar o cheiro típico que já não é estranho mas continua sem identificação. Absorvemos avidamente os derradeiros vislumbres desta terra. À medida que nos afastamos do centro, passamos por bairros cada vez mais degradados. Damos conta da grande velocidade a que seguíamos quando estacamos numa berma. O jovem não diz nada. Abeira-se com o nariz do tablier e aspira um pó espesso que jaz junto a uma estatueta de plástico de Ganesh. O deus com cara de elefante ilumina de forma intermitente por luzes de várias cores. O efeito de focos de discoteca estende-se a todos os ocupantes do veículo. É um Deus-eléctrico. O táxi preto e amarelo retoma a marcha desenfreada. Num cartaz promocional ao filme Ek Ajnabee lê-se “Go Bangkok”. Rimo-nos da ironia. E, por uma vez, aceitamos placidamente a sugestão.
sábado, 11 de julho de 2009
GANDHI UNIVERSAL
O museu Mani Bhavan está instalado numa vivenda de Malabar Hill. A modesta atmosfera caseira serve na perfeição para entrarmos no mundo do Pai da Nação indiana. Gandhi é uma omnipresença constante. Desde as notas que circulam de mão em mão às estátuas que prendem a atenção em praças e jardins, passando por um legado espiritual que parece pairar sob o país. Fotografias, cartas manuscritas e dactilografadas, objectos pessoais e uma representação em diorama de episódios marcantes da vida da Grande Alma transmitem a dimensão deste ser humano que derrotou um império à força da convicção. A tarde fresca convida a reflectir sobre a não evolução da Humanidade que teima em fazer esquecer as pisadas dos homens do bem e exaltar – com uma nostalgia mórbida por vezes – as façanhas dos homens do mal. O banho de humildade – e de vergonha – inunda-nos a pele, sobrepondo-se às gotículas de suor.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
ELEPHANTA ENVERGONHADA
Mumbai já foi portuguesa. Passou para os britânicos em 1534, como parte do dote de Catarina de Bragança. Bom Baía deu lugar a Bombay e o Gate of India, erigido para comemorar a visita do rei George V (1911), é peça central da área mais famosa da cidade, marcada igualmente pela fachada do Taj Mahal Hotel. No espaço térreo do hotel passeamos por galerias ocupadas por lojas luxuosas e utilizamos os WC públicos com direito a papel higiénico (geralmente não há papel nas casas de banho pelo que andamos sempre com papel e lenços nas mochilas de dia). Regressamos ao pórtico e apanhamos um barco para a ilha de Elephanta. Desembarcados, subimos uma escadaria repleta de bancas com lembranças para turista comprar. Depois das maravilhas já vistas, o complexo de grutas com estátuas esculpidas na rocha não impressiona. Grande parte das divindades de pedra está danificada. Diz-se que por causa dos portugueses, que gostavam de praticar tiro à estátua com os seus mosquetes.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
MUMBAI REVISITADA
Aqui aterrámos e daqui partimos. Entre duas Mumbai que no fundo são apenas uma, passou mais de mês e meio. A cidade está mais atarefada mas a principal mudança deu-se em nós. Ao cansaço acumulado junta-se a sede de fechar um capítulo para iniciar outro. Decidimos terminar em estilo VIP (pelo menos no padrão dos mochileiros), num quarto desafogado e asseado no YWCA, a versão feminina do famoso YMCA. Na televisão passam jogos de futebol da liga inglesa entre tardes inteiras dedicadas ao críquete e muita música. À noite, a tarifa paga inclui um saboroso jantar bufete.
Durante as saídas diárias, o calor convida a procurar sombras. Encontradas no Museu do Príncipe de Gales em que despontam as belas pinturas miniatura dos séculos 16 a 18. Lá fora, os extensos jardins rodeados de imponentes edifícios de estilo vitoriano são utilizados pela população para praticar críquete. O legado britânico é de pedra e de costumes. Mas a vivência é indiana.
Parados na berma do passeio, à espera do sinal verde dos peões, ladeia-nos um homem com roupa suja e esfarrapada, corpo débil e rosto cansado. Do outro lado, um homem de fato com bom corte, cabelo cuidado e face barbeada. Um olha para um ponto inexistente no horizonte com duas mãos cheias de nada. Outro olha para o telemóvel de última geração alojado numa mão enquanto carrega uma pasta executiva na outra. O semáforo torna-se vermelho. Um Mercedes pára ao lado de uma bicicleta. Sinal de uma Mumbai excessiva nos extremos que quase se tocam. Quase. Porque na verdade, há uma distância invisível e ao mesmo tempo espessa e concreta que os separa. E um dos grandes desafios da Índia é perceber esta sã convivência entre miseráveis e ricos, ombros quase encostados à espera de atravessar a mesma rua.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
COMBOIO SEM CHÁ
Três horas de comboio até à grande nova cidade indiana, Bangalore, de que só conhecemos as bancas de jornais e comida situadas nas plataformas da estação. Abastecemos a mochila pequena de batatas fritas e garrafas de água. Não precisamos de mais: pela primeira vez assentamos corpo e bagagem num compartimento de primeira classe. A viagem de 26 horas até Mumbai tem refeições quentes servidas por funcionários fardados. Há toalhas húmidas para lavar as mãos. Sozinhos durante grande parte do trajecto, num silêncio aconchegado, a leitura do The Times of India surge como uma metáfora para nos perdermos na catalogação e decifração das nossas memórias. A poeira indiana começa a assentar e a sedimentar no nosso espírito.
Paramos nas estações intermédias escondidos atrás do nosso vidro fosco que impede a entrada do calor e de olhares curiosos. Falta o cheiro das samosas e aloo embrulhado em folha de bananeira que costumavam entrar pela janela. Está abafado e longínquo o pregão dos vendedores de chá - “chaiiiiiiiiiii, chaiiiiiiiiiiiiii” – tão característico o caminho-de-ferro indiano. Não conseguimos observar a carrada de passageiros que deixa momentaneamente a carruagem, durante o estacionamento nos apeadeiros modestos, para aliviar a bexiga na berma. Olhamos para o interior imaculado do nosso compartimento e notamos um vazio no lugar costumeiro dos escarros avermelhados de paan mascado e lixo acumulado ao longo de horas de viagem. Aqui não somos alvo de olhares penetrantes ou sorrisos espontâneos. Não há pedintes a arrastarem pelos corredores cotos em vez de pernas, nem representantes de castas nobres a reivindicarem os melhores lugares para si próprios. Não há desespero nem alegria. Somente um conforto monocromático.
Concluímos que todas as horas passadas anteriormente em comboios representam o retrato mais fiel e perpétuo do que é a nossa experiência da Índia. E recordo o episódio com o hijra que me afrontou com solicitações incessantes para que lhe desse uma esmola. Nego as rúpias à mão estendida em frente da minha cara e o homem vestido de mulher procura amedrontar-me: mete uma mão entre as virilhas e dá a entender que vai levantar a saia e mostrar-me o que por lá anda. O grupo de mulheres com quem partilhamos o compartimento barafusta com veemência e afugenta-o, num vai e vem de impropérios. Passada a tensão, as mulheres riem desbragadas com o episódio. Nós também. Porque na Índia também se ri.
terça-feira, 7 de julho de 2009
MONTE LAVA-PECADOS
Almoçamos no Hotel Ritz por 240 rúpias (pouco mais de 3,5 euros) antes de rumar até Chamundi Hill. O trajecto ascendente é efectuado por curvas tortuosas e de visibilidade nula. Os motoristas de auto-riquexó utilizam a largura inteira da estrada, em trajectórias de corrida de fórmula 1, demonstrando confiança extremada de que não aparecerá nenhum camião ou autocarro em sentido contrário. No topo da colina, os macacos centram atenções empoleirados nas torres do templo Chamundeswari. Descobrimos que a descida de um caminho de mil degraus supostamente lava todos os pecados. Ajuntamos as energias restantes para a peregrinação que permite observar uma Mysore distante, plantada no meio de uma extensa planície. Recuperamos fôlego dentro de um auto-riquexó que desce vertiginosamente o monte. Antes das curvas, o jovem ao volante aperta uma buzina típica dos velhos calhambeques. Atrás de nós, duas colunas vibram com canções de Bollywood. Jantamos no requintado Park Lane Hotel para esquecer nova rábula com o preço da corrida, o taxímetro que não funcionava, as três vezes que o jovem “não percebeu” qual o hotel para onde queríamos ir. Os nossos tímpanos recuperam lentamente da agressão musical. Dormimos embalados e com a alma lavada de pecados, prontos para iniciar o grande trajecto final.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
MYSORE PALACIANA
Caminhamos para o término da etapa subcontinental. Mysore é uma pequena cidade do estado de Karnataka com um centro ordenado, repleto de avenidas largas e edifícios grandiosos. O palácio do marajá constrói-se de salões interiores de riqueza e beleza contrastantes. A visita guiada aplaca a sede informativa mas impõe um ritmo desfasado do nosso estado de espírito. Estamos em velocidade de contemplação, a que juntamos uma dose de espanto durante a visita à catedral de Santa Filomena, inspirada na congénere europeia de Colónia. A Índia tolerante reflecte-se em vitrais a retratar a vida de Cristo e catacumbas onde jazem os restos mortais de cristãos. A frescura da nave central é um abrigo do sol ardente exterior. Por ali ficamos, à conversa com os nossos deuses e familiares.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
TANJORE SUBALTERNA
É uma partida que deixa marcas invisíveis. É uma viagem e uma chegada sem história. É um recomeçar com nostalgia. Thanjavur (ou Tanjore) é vítima de Rameswaram, tal como o templo Brihadishwara é sacrificado por causa dos templos de Khajuraho. Deambulamos por um Património da Humanidade legado pela dinastia Chola com a sensação de dever cumprido. A massiva escultura de Nandi, o touro de Shiva, parece conotar a nossa pacatez com um desinteresse afrontador. Confundimos o bafo quente solar com a exalação furibunda do animal de 25 toneladas e fugimos para os longos corredores repletos de lingas (falo de pedra que simboliza Shiva), que nos recordam que esta é uma nação de falsa castidade. Deixamos o recinto do templo para nos misturarmos com as famílias que passeiam pelos jardins Shivaganga, mini-zoo a que não falta o kitsch dos pavões à solta. O fim de tarde representa o cerrar de um ciclo. A nossa pele ainda está impregnada do cheiro a maresia de uma praia de pescadores.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
EPIFANIA AZULADA
Não me interessa o Taj Mahal de Agra, pouco me importa a praia de Palolem, é-me indiferente as esculturas de Khajuraho. É isto. Esta praia de pescadores com barcos adormecidos na areia, ansiosos por regressar ao mar. Esta praia de pescadores com barcos ancorados na água, a bissectarem os azuis do céu e do mar. Esta praia de pescadores com um jardim infantil crescido do areal. Esta praia de pescadores onde o tempo deixou de existir como medida para se transmutar num sentimento. É isto. Por um momento, pertencemos a este lugar. Deixamos de ser corpos estranhos para nos redescobrirmos. Apuramos a visão, despertamos o olfacto, tacteamos a areia e a água com as mãos. Ouvimos o nosso coração bater em sintonia ao suave marulhar. Somos levados a pensar que todos os tormentos existiram para nos trazerem até aqui. A este confim da Índia que até poderia ser confim do mundo. Mas que para nós se tornou no centro de tudo. Como se fossemos um barco pequeno, rodeado por uma gigantesca tela azul.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
OFERENDA REDENTORA
terça-feira, 30 de junho de 2009
BALDE DE ÁGUA FRIA
Rameswaram é um dos locais mais sagrados da Índia. Logo ao amanhecer, peregrinos banham-se no mar da baía de Bengala antes de rumar ao templo Ramanathaswamy. Entre paredes, os devotos entregam-se a um labiríntico percurso que alterna preces e oferendas aos deuses com paragens junto a tanques onde lhes despejam na cabeça um baldes de água salgada. A AV entra na procissão, contando e suportando a passagem por 22 postos de água com respectivo “baptismo” sagrado. Termina satisfeita pela partilha religiosa, purificada dos pés à cabeça e certamente perdoada da matança encomendada de insectos indefesos. Eu desempenho o papel de mero observador, pelo que estou em crer que ainda tenho contas para ajustar. Mas antes é preciso restabelecer energias com um prato de arroz verde.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
RAMESWARAM REMOTA
Uma via estreita e longa, paralela a uma linha de comboio quase assente sobre água, desemboca em Rameswaram. Estamos numa ilha remota, apartados dos percursos dos turistas ocidentais. A insularidade tem custos e não há variedade de hospedagem. Ficamos no “pomposo” e estatal Hotel Tamil Nadu. O quarto espaçoso permite acomodar duas pessoas mais uma família de osgas, esquadrões de melgas e exércitos de formigas gigantes. Ao princípio, ainda convocamos uma mortandade dos rastejantes. Um funcionário desinfesta o quarto com uma bomba manual como se estivesse a espalhar insecticida num campo de cultivo. Os corpos tombados são varridos e o nosso descanso atormentado por imaginarmos quanto karma negativo acumulámos. Horas depois, as formigas restabelecem as vias de comunicação e reocupam as posições perdidas. Rendemo-nos a este poderio militar e partimos à caça de comida. O restaurante do hotel é espaçoso como uma cantina mas a ementa subordinada ao arroz sambar: versão branco, verde ou vermelho. Mas no meio de tudo isto, respira-se uma calmaria inusitada.
sábado, 27 de junho de 2009
SONHOS DE CARANGUEJO

As janelas dotadas de vidros que não fecham dão acesso a uma paisagem plana e árida, enquanto arejam o interior com pó e gases vindos da estrada. Dentro de um autocarro indiano somos um enxerto de sardinha com enguia em lata. A tremideira é constante mas não há espaço para onde tremer. Estica-se a perna para lado nenhum e dormita-se encostado ao amparo de cabeça do assento da frente. Somos os únicos estrangeiros no veículo. Os rostos em redor estão ensimesmados nas próprias vidas. A música alta compete com o ruído das acelerações do motor. Um estrondo vindo da traseira desperta os passageiros. Pelo espelho retrovisor, o condutor controla a situação. Abana a cabeça em desaprovação. Junto ao último banco está agora uma mulher agachada. Procura reaver todos os caranguejos vivos que viajavam dentro de uma sacola enorme. O som de tenazes a bater sobrepõe-se magicamente às buzinadelas, música e falatório. Descobrimos dez centímetros de espaço para elevar os joelhos e ficarmos com os pés suspensos no ar. Encostamos a cabeça, agora às mochilas entaladas entre nós, e dormitamos de novo. Assumimos a forma de caranguejo, regredimos no tempo e compreendemos que a viagem à Índia não passou de um sonho.
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