terça-feira, 15 de setembro de 2009

VIDA LOCAL NO RIO NAM SONG





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

VANG VIENG PACIFICADORA






Deixamos a terra triste em direcção a Vang Vieng. Não entusiasmam as descrições sobre o destino, lugar típico para diversão do turista ocidental. A principal atracção? Navegar rio abaixo refastelado numa câmara de pneu. As dificuldades em arranjar transporte para sair de Phonsavan não deixaram alternativa. Será aqui que passaremos o fim-de-ano. Aproveitamos para relaxar à beira da água, na sombra de uma cabana com tecto de palha, com vista para o impressionante recorte dos Penhascos Vermelhos. Lemos os nossos livros em segunda mão e rimo-nos das figuras de quem passa no rio agarrado a um pneu de camioneta. Ao jantar reencontramos um casal britânico com quem havíamos trocado impressões durante uma paragem do trajecto Phonsavan - Vang Vieng. Dick e Jane são reformados, sexagenários, mas carregam com à vontade mochilas iguais às nossas. Têm um espírito simples com que nos identificamos. São jovens. Ou talvez sejamos nós velhos. Seja como for, são a nossa bela companhia no brinde da meia-noite, nos abraços e beijos de viva o ano novo, nos desejos de felicidade. A noite do Laos mistura harmonia com foguetes para turista ver. No dia seguinte, descemos o rio na companhia do Dick. Numa câmara de ar. Um trajecto pacificador, numa água límpida, com vista para uma vegetação frondosa. Fizemos bem em vir a Vang Vieng. Nem que seja pelo exemplo de vida do duo inglês.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A GUERRA ESCONDIDA





PHONSAVAN MASSACRADA






O autocarro-chocalho atravessa pequenas casas isoladas. Os habitantes das construções suspensas em estacas de madeira e encimadas por telhados de colmo vivem à beira da estrada. Ali se banham com um jarro de água despejado pela cabeça. Ali cosem roupa ou cozinham. Ali jogam à bola, entre galinhas e porcos que tomam conta da beira da estrada. O Laos é ruralidade pura. E o nosso destino é pouco mais que isso: uma cidadezinha edificada em torno de duas ou três artérias principais. Phonsavan entra no roteiro turístico por boas e más razões. A positiva é o parque Plain of Jars que alberga dezenas de jarros de pedra enormes. São milenares e misteriosos em relação ao significado e utilidade. A negativa reside nas crateras existentes ao longo da caminhada. Resultado de bombas norte-americanas, estas apenas com poucas décadas. O guia da visita ao parque fala-nos da “guerra secreta” travada em território Lao. Avançam-se números: 2 milhões de toneladas de bombas largadas no país entre 1964 e 1973. Um recorde. Daqueles que ninguém gostaria de bater. Os EUA não reconhecem as missões no Laos. Não há documentos. Não há números. Só buracos gigantes. E pessoas que ainda hoje morrem fruto de deflagrações acidentais de engenhos adormecidos. Levará ainda décadas a livrar o território desta herança colateral e fatal da Guerra do Vietname.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ESTRADA-SERPENTE





Partimos num autocarro de aspecto indiano. E hábitos semelhantes. No tejadilho empilham-se mercadorias e motas. Os bancos do autocarro enchem-se rapidamente, mas a cada nova paragem “descobrem-se” lugares extra mediante a colocação de pequenos banquinhos de plástico no corredor. As janelas só abrem uma frincha e os estofos estão gastos e rotos. Quando o veículo começa a marcha, descobrimos a razão para se perspectivarem nove horas na ligação de Luang Prabang a Phonsavan. Circulamos a 20 ou 30 quilómetros por hora e mesmo assim o oscilar do autocarro chocalha violentamente tudo o que carrega no interior. Mesmo assim, gostaríamos que o condutor abrandasse quando entramos numa estrada-serpente montanhosa. Ouvimos o chiar dos pneus a travarem nas curvas sinuosas. Lá fora vislumbra-se um abismo demasiado próximo. A melhor descontracção é apreciar a paisagem. Até porque durante as paragens forçadas, olhar para o motorista debaixo do autocarro é menos apaziguador do que virarmos a face para este Laos de vegetação exuberante e selvagem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PAK OU ÉBRIA


Centenas de estátuas de Buda espalhadas por duas cavernas (Tham Thing e Them Phum) valem a entrada num novo barco longo e achatado para percorrer uma parte do Mekong já antes conhecida. A excursão tem ainda paragem na aldeia de Xang Hai, famosa pela produção de whisky de arroz. Em destilarias artesanais prepara-se a bebida forte, quase ofensiva para as papilas gustativas. Percorremos as vielas da aldeia e encontramos uma fábrica artesanal de papel. Compramos um pequeno bloco de notas. Para certas recordações não chegam palavras. É preciso poder cheirá-las e tacteá-las. Regressamos a Luang Prabang com a certeza de que podemos prosseguir. A cidade já está incrustada nas nossas memórias.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

DIVINDADES (I)MATERIAIS





PAISAGENS ACETINADAS


Acordamos cedo. Um grupo de budistas sai dos aposentos nos wats e ruma até à porta das moradias. Os habitantes esperam-nos com oferendas de comida. O feitiço Lao prossegue com a visita ao Palácio e Museu Real. Mandado construir em 1904 pelo rei Sisavangvong, lar das sucessivas famílias reais até à abolição da monarquia em 1975, o edifício e o wat adjacente resplandece sob o sol brilhante que faz desaparecer a atmosfera enevoada e mística. De tarde, subimos os 329 degraus do monte Phousi para assistir ao pôr-do-sol colados à stupa do templo Chom Phousi. Aos nossos pés, Luang Prabang parece incitar-nos a não sobrecarregar novamente os nossos ombros com o peso das mochilas. A noite cai com a suavidade de um manto de cetim, confortando-nos com uma sensação caseira. A mais de dez mil quilómetros, comemora-se o dia de Natal. Telefonamos para ouvir vozes distantes e aquecer corações familiares. E bebemos uma Beerlao para serenar as saudades despertas.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

FACES DO LAOS





CONSOLADOS SEM BACALHAU




Noite de consoada. Sentados em almofadas num restaurante aconchegador, composto por várias salas de decoração aprimorada e pouco atafulhadas de gente, constatamos o já previsível: no menu não consta o bacalhau. Não ficamos decepcionados, tal como não houve desapontamento na calma precedente face à ausência da obrigação de compras e do espírito consumista que cada vez mais deturpa o Natal original. A nossa mesa é composta de massa com frango agridoce, salada de papaia, salsicha nacional. No rótulo das garrafas lê-se Beerlao, saborosa cerveja que rapidamente se torna nossa companheira. Brindamos a um dia preenchido de recordações indeléveis. Os relevos dourados e o mosaico da Árvore da Vida Budista do Wat Xieng Thong. E o espectáculo do Royal Ballet Pralak Pralam. Adormeço em sonhos cor de dançarinas de saia comprida e rosto de boneca a movimentarem-se de forma doce e etérea.