sexta-feira, 10 de julho de 2009

ELEPHANTA ENVERGONHADA






Mumbai já foi portuguesa. Passou para os britânicos em 1534, como parte do dote de Catarina de Bragança. Bom Baía deu lugar a Bombay e o Gate of India, erigido para comemorar a visita do rei George V (1911), é peça central da área mais famosa da cidade, marcada igualmente pela fachada do Taj Mahal Hotel. No espaço térreo do hotel passeamos por galerias ocupadas por lojas luxuosas e utilizamos os WC públicos com direito a papel higiénico (geralmente não há papel nas casas de banho pelo que andamos sempre com papel e lenços nas mochilas de dia). Regressamos ao pórtico e apanhamos um barco para a ilha de Elephanta. Desembarcados, subimos uma escadaria repleta de bancas com lembranças para turista comprar. Depois das maravilhas já vistas, o complexo de grutas com estátuas esculpidas na rocha não impressiona. Grande parte das divindades de pedra está danificada. Diz-se que por causa dos portugueses, que gostavam de praticar tiro à estátua com os seus mosquetes.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

MUMBAI REVISITADA






Aqui aterrámos e daqui partimos. Entre duas Mumbai que no fundo são apenas uma, passou mais de mês e meio. A cidade está mais atarefada mas a principal mudança deu-se em nós. Ao cansaço acumulado junta-se a sede de fechar um capítulo para iniciar outro. Decidimos terminar em estilo VIP (pelo menos no padrão dos mochileiros), num quarto desafogado e asseado no YWCA, a versão feminina do famoso YMCA. Na televisão passam jogos de futebol da liga inglesa entre tardes inteiras dedicadas ao críquete e muita música. À noite, a tarifa paga inclui um saboroso jantar bufete.
Durante as saídas diárias, o calor convida a procurar sombras. Encontradas no Museu do Príncipe de Gales em que despontam as belas pinturas miniatura dos séculos 16 a 18. Lá fora, os extensos jardins rodeados de imponentes edifícios de estilo vitoriano são utilizados pela população para praticar críquete. O legado britânico é de pedra e de costumes. Mas a vivência é indiana.
Parados na berma do passeio, à espera do sinal verde dos peões, ladeia-nos um homem com roupa suja e esfarrapada, corpo débil e rosto cansado. Do outro lado, um homem de fato com bom corte, cabelo cuidado e face barbeada. Um olha para um ponto inexistente no horizonte com duas mãos cheias de nada. Outro olha para o telemóvel de última geração alojado numa mão enquanto carrega uma pasta executiva na outra. O semáforo torna-se vermelho. Um Mercedes pára ao lado de uma bicicleta. Sinal de uma Mumbai excessiva nos extremos que quase se tocam. Quase. Porque na verdade, há uma distância invisível e ao mesmo tempo espessa e concreta que os separa. E um dos grandes desafios da Índia é perceber esta sã convivência entre miseráveis e ricos, ombros quase encostados à espera de atravessar a mesma rua.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

COMBOIO SEM CHÁ





Três horas de comboio até à grande nova cidade indiana, Bangalore, de que só conhecemos as bancas de jornais e comida situadas nas plataformas da estação. Abastecemos a mochila pequena de batatas fritas e garrafas de água. Não precisamos de mais: pela primeira vez assentamos corpo e bagagem num compartimento de primeira classe. A viagem de 26 horas até Mumbai tem refeições quentes servidas por funcionários fardados. Há toalhas húmidas para lavar as mãos. Sozinhos durante grande parte do trajecto, num silêncio aconchegado, a leitura do The Times of India surge como uma metáfora para nos perdermos na catalogação e decifração das nossas memórias. A poeira indiana começa a assentar e a sedimentar no nosso espírito.
Paramos nas estações intermédias escondidos atrás do nosso vidro fosco que impede a entrada do calor e de olhares curiosos. Falta o cheiro das samosas e aloo embrulhado em folha de bananeira que costumavam entrar pela janela. Está abafado e longínquo o pregão dos vendedores de chá - “chaiiiiiiiiiii, chaiiiiiiiiiiiiii” – tão característico o caminho-de-ferro indiano. Não conseguimos observar a carrada de passageiros que deixa momentaneamente a carruagem, durante o estacionamento nos apeadeiros modestos, para aliviar a bexiga na berma. Olhamos para o interior imaculado do nosso compartimento e notamos um vazio no lugar costumeiro dos escarros avermelhados de paan mascado e lixo acumulado ao longo de horas de viagem. Aqui não somos alvo de olhares penetrantes ou sorrisos espontâneos. Não há pedintes a arrastarem pelos corredores cotos em vez de pernas, nem representantes de castas nobres a reivindicarem os melhores lugares para si próprios. Não há desespero nem alegria. Somente um conforto monocromático.
Concluímos que todas as horas passadas anteriormente em comboios representam o retrato mais fiel e perpétuo do que é a nossa experiência da Índia. E recordo o episódio com o hijra que me afrontou com solicitações incessantes para que lhe desse uma esmola. Nego as rúpias à mão estendida em frente da minha cara e o homem vestido de mulher procura amedrontar-me: mete uma mão entre as virilhas e dá a entender que vai levantar a saia e mostrar-me o que por lá anda. O grupo de mulheres com quem partilhamos o compartimento barafusta com veemência e afugenta-o, num vai e vem de impropérios. Passada a tensão, as mulheres riem desbragadas com o episódio. Nós também. Porque na Índia também se ri.

terça-feira, 7 de julho de 2009

MONTE LAVA-PECADOS




Almoçamos no Hotel Ritz por 240 rúpias (pouco mais de 3,5 euros) antes de rumar até Chamundi Hill. O trajecto ascendente é efectuado por curvas tortuosas e de visibilidade nula. Os motoristas de auto-riquexó utilizam a largura inteira da estrada, em trajectórias de corrida de fórmula 1, demonstrando confiança extremada de que não aparecerá nenhum camião ou autocarro em sentido contrário. No topo da colina, os macacos centram atenções empoleirados nas torres do templo Chamundeswari. Descobrimos que a descida de um caminho de mil degraus supostamente lava todos os pecados. Ajuntamos as energias restantes para a peregrinação que permite observar uma Mysore distante, plantada no meio de uma extensa planície. Recuperamos fôlego dentro de um auto-riquexó que desce vertiginosamente o monte. Antes das curvas, o jovem ao volante aperta uma buzina típica dos velhos calhambeques. Atrás de nós, duas colunas vibram com canções de Bollywood. Jantamos no requintado Park Lane Hotel para esquecer nova rábula com o preço da corrida, o taxímetro que não funcionava, as três vezes que o jovem “não percebeu” qual o hotel para onde queríamos ir. Os nossos tímpanos recuperam lentamente da agressão musical. Dormimos embalados e com a alma lavada de pecados, prontos para iniciar o grande trajecto final.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

MYSORE PALACIANA



Caminhamos para o término da etapa subcontinental. Mysore é uma pequena cidade do estado de Karnataka com um centro ordenado, repleto de avenidas largas e edifícios grandiosos. O palácio do marajá constrói-se de salões interiores de riqueza e beleza contrastantes. A visita guiada aplaca a sede informativa mas impõe um ritmo desfasado do nosso estado de espírito. Estamos em velocidade de contemplação, a que juntamos uma dose de espanto durante a visita à catedral de Santa Filomena, inspirada na congénere europeia de Colónia. A Índia tolerante reflecte-se em vitrais a retratar a vida de Cristo e catacumbas onde jazem os restos mortais de cristãos. A frescura da nave central é um abrigo do sol ardente exterior. Por ali ficamos, à conversa com os nossos deuses e familiares.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

TANJORE SUBALTERNA





É uma partida que deixa marcas invisíveis. É uma viagem e uma chegada sem história. É um recomeçar com nostalgia. Thanjavur (ou Tanjore) é vítima de Rameswaram, tal como o templo Brihadishwara é sacrificado por causa dos templos de Khajuraho. Deambulamos por um Património da Humanidade legado pela dinastia Chola com a sensação de dever cumprido. A massiva escultura de Nandi, o touro de Shiva, parece conotar a nossa pacatez com um desinteresse afrontador. Confundimos o bafo quente solar com a exalação furibunda do animal de 25 toneladas e fugimos para os longos corredores repletos de lingas (falo de pedra que simboliza Shiva), que nos recordam que esta é uma nação de falsa castidade. Deixamos o recinto do templo para nos misturarmos com as famílias que passeiam pelos jardins Shivaganga, mini-zoo a que não falta o kitsch dos pavões à solta. O fim de tarde representa o cerrar de um ciclo. A nossa pele ainda está impregnada do cheiro a maresia de uma praia de pescadores.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

GEOMETRIA DESCRITIVA



EPIFANIA AZULADA






Não me interessa o Taj Mahal de Agra, pouco me importa a praia de Palolem, é-me indiferente as esculturas de Khajuraho. É isto. Esta praia de pescadores com barcos adormecidos na areia, ansiosos por regressar ao mar. Esta praia de pescadores com barcos ancorados na água, a bissectarem os azuis do céu e do mar. Esta praia de pescadores com um jardim infantil crescido do areal. Esta praia de pescadores onde o tempo deixou de existir como medida para se transmutar num sentimento. É isto. Por um momento, pertencemos a este lugar. Deixamos de ser corpos estranhos para nos redescobrirmos. Apuramos a visão, despertamos o olfacto, tacteamos a areia e a água com as mãos. Ouvimos o nosso coração bater em sintonia ao suave marulhar. Somos levados a pensar que todos os tormentos existiram para nos trazerem até aqui. A este confim da Índia que até poderia ser confim do mundo. Mas que para nós se tornou no centro de tudo. Como se fossemos um barco pequeno, rodeado por uma gigantesca tela azul.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

VIDA ANIMAL ALDEÃ



OFERENDA REDENTORA

O caminho que leva ao Gandamadhana Paravtham está ladeado de casas modestas. Crianças vêm ao nosso encontro, movidas de uma curiosidade espontânea. Sou tímido a fotografar humanos por achar que os importuno. Talvez até acredite, inconscientemente, que possa roubar-lhes parte da alma. Mas face àqueles rostos encontrados no meio de uma estrada indiana, parece-me que seria ofensivo tratá-los com indiferença ou deferência não solicitada. Elas posam com acanhamento igual àquele com que eu carrego no disparador. O passeio culmina num templo de traça e recheio simples. O belo cenário em redor é desfrutado com uma paz reencontrada na pureza daquelas crianças. São elas que me redimem e preparam para uma catarse de meditação silenciosa que aplaca as fúrias, as frustrações e o cansaço. Concluo que esta Rameswaram perdida numa ilha remota, talvez nos esteja a tocar na alma.