domingo, 24 de maio de 2009

O LADO BOM DE AGRA




QUADRILOGIA DO TAJ


REDENÇÃO ALVA


Passadas as barreiras primárias – bilheteiras e controle policial – o Taj Mahal esconde-se atrás de um comprido muro avermelhado que circunda o recinto. Percorremos com excitação os metros que faltam até ao pórtico de entrada. O primeiro impacto tem algo de sobrenatural. Ao encarar o famoso objecto branco, ainda à distância, estacamos numa observação fascinada que dura alguns segundos eternos. É madrugada e os ínfimos visitantes movem-se como sombras. À medida que nos aproximamos, tem início uma dança de descobertas que só terminará ao pôr-do-sol. Surgem inscrições do Corão a negro, flores e motivos geométricos coloridos. O mausoléu erigido em nome do amor muda de personalidade consoante as diferentes intensidades da luz solar. A arquitectura redonda e feminina emana de todos os ângulos o sindroma da beleza simétrica. O Taj Mahal é um cliché. Concreto e justificado. Mas com um preço alto a pagar. Felizmente, já podemos partir.

sábado, 23 de maio de 2009

MARABUNTA HUMANA


Avistamos a cúpula da Jama Masjid mas não descortinamos como lá chegar. Caminhamos com os olhos postos no pináculo e, sem termos noção, enveredamos por uma rua estreita, ladeada de bancas de comida, roupa, aparelhos electrónicos. Num repente, como se abrissem uma comporta, ficamos submersos num mar de gente. Os olhares e as solicitações intensificam-se. O nosso espaço vital escasseia como se fossemos as formas lutadoras do quadro de Franz Marc. Sentimo-nos indefesos perante o avanço da marabunta humana, sem sítio para onde fugir. Assaltamos um auto-riquexó e pedimos com veemência ao condutor para sair dali. Rápido! Já! Já! Naquele casulo protector, à medida que nos afastamos, deixamos lentamente de ofegar. O coração pede para nos irmos embora. Daquela rua, de Agra, talvez até da Índia. O cérebro não ouve e desobedece às emoções. No nosso lar emprestado, bebemos cabisbaixos um chá pacificador. Amanhã é dia de Taj Mahal e queremos acreditar que vamos viver um momento sublime para esfregarmos da pele o lado agreste de Agra.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

FORTE RUBOR






A visita ao Forte de Agra é interrompida por jovens indianos que querem tirar o retrato ao lado da ocidental de pele branca. Acedidos os primeiros pedidos, a simpatia é confundida com permissividade. Chovem novas solicitações de fotografia: individuais, em grupo, com braço ao ombro... Acossada, a Andreia resolve a situação com um “no more” decidido. A perseguição prossegue e é preciso uma posição e voz mais vincada para a terminar. Na Índia, a “sobrevivência” do viajante parece indissociável de manter inviolada a fronteira invisível que o rodeia e lhe permite respirar. Os turistas “profissionais” despejados de autocarros de ar condicionado sabem-no bem. Depois da visita ao monumento, apressam-se a reentrar no rectângulo asséptico. É a partir da janela que compram as lembranças aos vendedores de rua. Nós, intrépidos ou inconscientes, adensamo-nos no labirinto de ruas de terra batida à procura de uma mesquita.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

UIVO LANCINANTE



O Hotel Sheela fica quase colado à porta Este de acesso ao Taj Mahal. Apesar das várias lojas de artesanato e de telemóveis, a rua é pacata e alcatroada. Um pequeno carreiro ao longo da muralha que protege o (provavelmente) monumento mais conhecido do mundo, leva-nos até ao rio Yamuna. Entardece e este não é um local turístico. Jovens jogam críquete ou mergulham na água. Na penumbra atrás de nós surge o Taj, num esplendor antecipado. O acto de contemplação é sobressaltado. Agra deixa vergões na alma e os sentidos jamais deixam de estar em alerta máximo. Feito o reconhecimento do local e das gentes, acedemos a um momento de pacatez junto ao depósito de lixo que faz as vezes de margem (plástico e mais plástico, em forma de sacos e garrafas). Um cão uiva ao companheiro isolado no outro lado do rio. Simpatizamos com a dor dele.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O LADO AGRESTE DE AGRA




É um típico caso do “objecto certo no local errado”. Ir à Índia e não ver o Taj Mahal pode parecer uma blasfémia. Mas ir à Índia e ver o Taj Mahal pode significar a experiência paralela mais rude da vida. O riquexó motorizado que apanhamos na estação de comboios assim o prova. Durante o trajecto até à guest house pretendida somos assediados por um co-piloto entrado a meio do percurso. Propõe hotel, local especial para ver o Taj ao pôr-do-sol, a melhor loja de lembranças de Agra. Dizemos não a tudo. A falta de firmeza representa uma via aberta para gastarmos rúpias em esquemas menos claros só para escaparmos à táctica do cerco a que nos submetem. Persistimos na negação e temos como resposta sermos deixados a meio do caminho, sem o sabermos, com a justificação de o trânsito estar vedado. O “é já ali” representa um pesadelo inesperado: atravessar a pé o bairro mais sujo e feio da cidade. Recorro ao mapa para orientação e a nossa situação torna-se ainda mais frágil. Somos cercados por molestadores que procuram “oferecer” transporte ou sítio para dormir, para comer, para comprar artesanato. A solução é continuar a andar sem parar, na direcção cardeal que nos levará ao nosso destino. O desfecho da fuga asfixiante tem forma de jardim verdejante, quarto com lagarto na parede, casa de banho com ferrugem. E face ao que atravessámos, este é um final feliz.

terça-feira, 19 de maio de 2009

DECIFRAR O CÓDIGO DOS COMBOIOS


O utilitário guia Trains at a Glance dedicado aos caminhos-de-ferro indianos tem umas simpáticas 270 páginas. Inclui um mapa que assinala as linhas ferroviárias, coloridas por grau de importância. Nesta síntese esquemática que cabe numa folha, parece fácil deambular pelo sub-continente atrelados a locomotivas. Mas quando queremos marcar o percurso, surgem as tabelas e sub-tabelas, os horários, os transbordos, os dias de funcionamento, o tipo de classe... Números e letras baralham-se em cálculos exigentes até encontrar o melhor trajecto. Comprar um bilhete de comboio revela-se uma diligência quase tão grande como a própria viagem numa carruagem indiana.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

NOBREZA POPULAR




Udaipur é terra de marajá. Acabado o tempo em que se acumulavam riquezas múltiplas e poder político ao estatuto social herdado, abriram-se as portas dos palácios aos turistas pagantes. As famílias indianas fazem da ocasião uma festa. No interior fotografam, riem, percorrem como formigas apressadas os quartos e salões que ostentam magnificência com impudor. Nos jardins exteriores, comem, descansam, conversam. Sentamo-nos na relva com sensação de dever cumprido. Olhamos para um nicho com deuses indianos e pensamos sobre se devemos rezar ou não. É que a seguir vem Agra.

domingo, 17 de maio de 2009

ATESTAR O ESTÔMAGO




Aproveitamos Udaipur para comer bem, num conjunto de refeições acompanhadas de horizontes visuais que repousam a mente. Sentimo-nos turistas de corpo e alma, longe dos bairros de lata (com plástico no lugar da lata), dos esgotos a céu aberto e do lixo amontoado que vislumbrámos a partir do comboio à saída de Mumbai. Nestes refúgios ocidentalizados não encontramos a sujidade e o desconforto das ruas empoeiradas da cidade. Assentamos o corpo em almofadas fofas. Numa noite rumamos num barco privativo ao luxuoso Lake Palace, edificado no meio do lago. Espera-nos um jantar buffet por um preço obsceno para a Índia (60 euros/2 pessoas). Atestamos os nossos estômagos privilegiados, resistindo à tentação de nos sentirmos mal com o manjar. A congestão ocorre durante o pitoresco espectáculo de danças tradicionais. Ao nosso redor, proeminentes panças com copos de whiskie na mão espojam-se em cadeirões de verga. Emparedados entre dois mundos opostos – o da extrema riqueza e da extrema pobreza - sem pertencer a nenhum deles, regressamos reconfortados ao nosso quarto onde pendurámos um cordão de rede de pescador a fazer de estendal da roupa.